Construindo Fleabag: desvios, agonias e confissões
- Writer's Room 51
- há 3 dias
- 10 min de leitura
Atualizado: há 2 dias
O roteirista e professor João Pedro Pinho explica os principais fundamentos da personagem de sucesso

A série Fleabag (2016-2019), criada e protagonizada por Phoebe Waller-Bridge, conquistou audiências e crítica por sua abordagem mordaz e emocionalmente complexa. Seu sucesso não reside apenas na originalidade formal da quebra da quarta parede, mas na forma como essa estrutura dialoga com sua protagonista.
Fleabag é uma personagem única, autêntica e que mescla desvio cômico e agonia trágica, usando o humor como um mecanismo de defesa mal-adaptativo para mascarar a dor e o trauma. É uma personagem complexa, mas que carrega uma ironia cômica irresistível para o público.
Para falar sobre a construção dessa personagem tão querida, adaptamos o material elaborado por João Pedro Pinho, curador na TV Globo, Mestre em Comunicação e roteirista. Na TV Globo, trabalha com produção de desenvolvimento, programação de filmes e séries, e curadoria de conteúdo. Ministrou disciplinas na graduação em Estudos de Mídia da UFF como estágio docência e é professor da Roteiraria, com cursos sobre dramédia. Como roteirista, tem diversos projetos autorais selecionados em laboratórios e concursos.
Essa é uma parte do conteúdo tratado no curso online “Traumédias em Séries", com inscrições abertas até 8/4/25 para a segunda edição. Participe!
O que é traumédia?
O termo “traumédia” é geralmente associado a narrativas que se constroem ao redor de personagens traumatizados, mas que utilizam o humor para discutir essa temática e suas repercurssões.
“O humor tem várias finalidades em relação ao trauma: uma forma de alívio de tensão e mecanismo de enfrentamento; espelha a realidade e facilita a interação; e pode ser usado para desviar de emoções negativas” - (CSÜRÖS, 2021)
O termo começou a aparecer em resenhas e artigos, principalmente dos Estados Unidos, catapultado por “I May Destroy You”, obra autoficcional de Michaela Coel que desafiou convenções clássicas de gêneros narrativos. Alguns anos antes, “Fleabag” se tornava um marco ao trazer a jornada de uma mulher traumatizada que expunha sem pudor seu íntimo e fragilidades.
Assim, a traumédia pode ser um reflexo do caos sócio político contemporâneo, trazendo narrativas altamente relacionáveis em um mundo de grande ansiedade e incertezas. Estresses, insegurança, fragilidades, esgotamento – o idílico parece distante, tanto para os personagens quanto para o público.
Traumédias também trazem uma estrutura narrativa que é construída e guiada a partir dos processos emocionais de seus protagonistas, que lidam com as reverberações do trauma em seus arcos narrativos.
Desvio comportamental: guiando a jornada da personagem

ALERTA: SPOILERS A SEGUIR!
O arco de transformação de Fleabag ao longo da série é um estudo preciso sobre a intersecção entre misbehavior (falha comportamental característica da personagem), defesa emocional e crescimento.
Ao analisar os pilares de sua construção dramática, percebemos que sua jornada se estrutura sobre a luta entre a reiteração de falhas e as janelas de correção, elementos essenciais para a construção de personagens verossímeis e cativantes.
Desvio: janelas de correção x reiteração
Ao longo da sua jornada narrativa, os protagonistas das séries passam por momentos tanto de correção quanto reiteração de suas falhas. Afinal, no processo de mudança e evolução, todos nós intercalamos vitórias e derrotas, mudanças positivas e repetições de erros pré-existentes, aprendizados e “retrocessos”.
Assim deve ser, também, com personagens ficcionais verossímeis e bem-construídos. É um processo repleto de “vai-e-vens”, de momentos gloriosos alternados com recaídas.
Desvio: elementos dinâmicos x opositores
Outra característica de um desvio comportamental bem construído e sustentado ao longo de um arco serializado é que ele deve ser tensionado por elementos que tanto o reforçam quanto ajudam sua atenuação.
Opositores: são os elementos e personagens que vão contra a jornada de superação do misbehavior/tipificação/mecanismo de defesa (direta ou indiretamente). Levam a protagonista a permanecer agindo de maneira negativa quanto àquela falha comportamental. Eles a fazem reiterar seus erros.
Dinâmicos: são os elementos e personagens que ajudam a jornada de superação dos misbehavior/tipificação (direta ou indiretamente). Introduzem novos elementos e caminhos para que a protagonista mude sua característica desviante, para que ela evolua em sua própria jornada. Eles a auxiliam a corrigir seus erros.
Desvio central de Fleabag: afastamento emocional e dissociação

Agora que você sabe um pouco sobre a importância e os mecanismos do desvio na narrativa, podemos destrinchar que o maior desvio comportamental de Fleabag é seu afastamento emocional. Ela não se permite vulnerabilidade e recorre a diferentes mecanismos para evitar o enfrentamento de sentimentos dolorosos e proximidade afetiva com os outros.
Esse desvio de afastamento emocional gera vários comportamentos mal-adaptativos:
Orgulho: recusa ajuda financeira da irmã, evita pedir apoio ao pai.
Mentira compulsiva: falseia sua realidade e mascara emoções.
Julgamento excessivo: isola-se ao rebaixar os outros.
Compulsão sexual: usa o sexo como forma de anestesia emocional.
Insensibilidade romântica e afetiva: é incapaz de se entregar a relações genuínas.
Dissociação: suas constantes quebras da quarta parede revelam um distanciamento da realidade - Fleabag precisa dialogar com a audiência pois é incapaz de falar de forma honesta e se conectar verdadeiramente com o mundo ao redor dela.
A primeira cena da série, por exemplo, é um microcosmo da personagem: num encontro sexual, Fleabag dissocia completamente, virando-se para a câmera e analisando a situação como se estivesse fora dela. Esse mecanismo se repete ao longo dos episódios, atravessando diversas esferas da vida da protagonista: no trabalho, na família, no sexo, no enfrentamento de situações desconfortáveis e gatilhos de traumas.
A ironia é que essa fuga a aprisiona ainda mais em seu sofrimento - daí o termo “mecanismo de defesa mal-adaptativo”.
A série revela que Fleabag se distanciou tanto de tudo e todos após sofrer traumas relacionados à morte de Boo e de sua mãe. A partir da trágica morte de Boo, Fleabag passou a se afastar emocionalmente de todos para tentar se proteger de sofrer tanto novamente.
Apesar dessa ser a maneira da personagem tentar se defender, entretanto, ela apenas gera mais agonia em Fleabag, pois a mantém “really fucking lonely” (extremamente solitária), como a personagem admite no diálogo do final da primeira temporada.
Opositores e Elementos dinâmicos
Para que um mecanismo de defesa mal-adaptativo seja explorado de forma eficaz, a narrativa precisa estabelecer um sistema de oposição e correção.
Em Fleabag, isso acontece através da interação com personagens-chave que reforçam ou desafiam sua desconexão emocional.
Opositores (Reiteram o desvio):
Família: Claire e o pai reforçam o afastamento emocional de Fleabag muitas vezes não oferecendo o suporte emocional que ela precisa. Isso a faz continuar distante e retraída.
Trauma e Culpa: A morte de Boo e o modo como Fleabag carrega a culpa fazem com que ela continue evitando enfrentar seus sentimentos. Enquanto ela não processar o ocorrido e se perdoar, a culpa a mantém aprisionada no isolamento.
Elementos dinâmicos (janelas de correção):
Boo: Sua amizade representa um vínculo autêntico que Fleabag perdeu. No final, é a memória de Boo e sua crença no perdão que levam Fleabag a mudar.
Gerente do Banco: Ele reconhece a dor de Fleabag e a trata com empatia, criando um momento raro de conexão verdadeira.
Padre Gato (2ª temporada): Atua como catalisador final para sua jornada de crescimento emocional, pois fala abertamente sobre seus sentimentos desde o primeiro encontro com a protagonista, é mais vulnerável, e desperta uma conexão verdadeira com ela.
O equilíbrio entre tragédia e comédia

O maior trunfo da construção de Fleabag está na forma como a série costura seu desvio com a estrutura cômica. O humor não é apenas um recurso estilístico, mas a própria essência de sua proteção psicológica. A dissociação através da comédia a impede de se conectar com suas emoções reais.
Grande parte do humor de Fleabag se dá através da exploração de questões que costumam ser reservadas ao lócus privado ou a assuntos considerados tabu, ou junção de elementos inesperados. Fleabag usa o confessional para falar sobre seu corpo e sexualidade sem filtros, admite ser uma “má feminista”, faz comentários mordazes sobre as pessoas ao seu redor, dentre outros.
A questão é que essa quebra da quarta parede admitindo e falando várias coisas hilárias causa, ao mesmo tempo, 1) o riso na audiência e 2) agonia à protagonista, a partir do momento em que vira uma dissociação que Fleabag reitera, reforçando seu isolamento emocional.
Assim, Fleabag nos faz gargalhar com os absurdos que ela comete, e nos convida a rir tanto dela quanto se juntar a ela para rir e julgar os outros ao seu redor. Mas existem pequenos momentos de fissura nos quais a protagonista desarma seu mecanismo de defesa e expõe sua vulnerabilidade - e eles se tornam ainda mais potentes por revelarem que muito do que nos faz rir causa também uma agonia profunda na protagonista.
“Tento desarmar o público o máximo que posso com a comédia e, em seguida, dou aquele soco no estômago com um drama quando menos se espera.” - Phoebe Waller-Bridge
Em diversos momentos, vemos essa dinâmica funcionando:
1x01: Fleabag finge que está tudo bem para Claire, recusa ajuda financeira e, ao negar um convite da irmã para sair, logo convida uma estranha aleatória.
1x02: Na banheira, admite rapidamente a um estranho que se sente solitária, algo que não consegue fazer com sua própria família.
1x04: No retiro silencioso, após ouvir um grande monólogo confessional do Gerente do Banco, Fleabag revela seu estado emocional em uma única fala: “Eu apenas quero chorar. O tempo todo.”.
O humor e o ritmo narrativo também vem através de vários diálogos acelerados, caóticos, e cortes rápidos e bruscos de cena, uma espécie de “punch” na edição e montagem.
A jornada de processamento do trauma e da disforia

Ao longo da série, Fleabag caminha para a aceitação e a elaboração de seus traumas. Essa é uma jornada comum em traumédias, já que existe uma preocupação com o processo de cura da protagonista.
A primeira temporada da série foca no luto por Boo, enquanto a segunda adiciona a ausência materna ao centro do conflito emocional da protagonista. Vemos mais do passado de Fleabag e de como o luto pela mãe e a fissura causada no âmbito familiar reverberam em suas questões e relacionamentos.
A verdadeira mudança ocorre quando Fleabag finalmente encara seu isolamento e desarma seus mecanismos de afastamento emocional para se conectar de forma autêntica. Sua jornada é sobre integrar sentimentos ao invés de se esconder por trás da ironia.

Nas duas temporadas, a jornada interna é movida pela atenuação da distância emocional que Fleabag cria com as pessoas e a alienação afetiva que ela inflige a si por tentar desligar seus sentimentos – ao invés de processar suas emoções, saindo da solidão causada pelo mecanismo de dissociação pós-traumática. É isso que Fleabag precisa - se isolar menos, se conectar mais.
Na primeira temporada, Fleabag consegue se conectar de maneira autêntica e vulnerável com o Banqueiro com o qual ela se desentende no piloto. Após ter uma conversa emotiva na qual ele desabafa com ela no 1x04 (episódio do retiro), no final da temporada é ela que desabafa com ele, admitindo coisas que ela não consegue falar para a própria família. O Banqueiro pratica o perdão com Fleabag: pessoas cometem erros e merecem uma chance de consertá-los.

Apesar da vulnerabilidade com o Banqueiro, a protagonista termina a temporada em meio a uma crise familiar, e tendo relacionamentos românticos disfuncionais. A segunda temporada, vem então, para que Fleabag consiga curar essas duas grandes feridas: seus relacionamentos familiares e sua incapacidade de se abrir verdadeiramente para um romance.
Na segunda temporada de Fleabag, “Hot Father” (o Padre Gato) é seu principal dinâmico:
Desde o jantar do 2x01, ele demonstra ser extremamente aberto em relação a seus sentimentos e sua vida. Ele chega a fazer “oversharing”. Fala sobre como os pais dele eram alcoolistas, seu irmão era pedófilo, etc. – em menos de 10 minutos de tela na série. Em comparação, Fleabag levou uma temporada inteira para admitir sua profunda solidão no episódio 1x06.
Ele é o extremo oposto da Fleabag em relação à como fala de suas questões e vulnerabilidades abertamente: ao mesmo tempo, é parecido com ela por não ter papas na língua, se sentir solitário, e não se importar de deixar os outros desconfortáveis.
Ele traz duas grandes disrupções em relação ao padrão comportamental de Fleabag: pela primeira vez, a quebra da quarta parede de Fleabag é enxergada por outro personagem, e não só pelo público (e isso acontece porque ele se conecta de verdade com ela).
É também na cena em que Fleabag confessa a ele (2x04) que, pela primeira vez, ela pede abertamente ajuda para alguém, pois nunca verbalizou esse pedido e foge desse nível de vulnerabilidade.
Após se apaixonar de verdade pelo Padre e de ter se permitido ser vulnerável e emotiva de maneira profunda (curando também seus relacionamentos familiares na jornada), Fleabag se despede de nós. Ela não precisa mais quebrar a quarta parede e fugir do que está acontecendo em sua vida, dissociando para falar com outro interlocutor ao invés de estar emocionalmente presente nos momentos e relacionamentos à sua volta.
Assim, a série termina pois a jornada de cura e desarmamento do mecanismo de defesa de Fleabag chega ao fim, o que a liberta da quebra da quarta parede e do nosso olhar como telespectador.
Ela não precisa mais que estejamos por perto para dissociar, para que sejamos um ponto de fuga. Ela se libertou de seu mecanismo de defesa mal-adaptativo.
Traumédias e as jornadas de desarmamento dos mecanismos de defesa mal-adaptativos

Tanto a jornada de Fleabag quanto de outros protagonistas de traumédias são de elaboração de traumas e desarmamento de um mecanismo de defesa que eles criaram para tentar processar angústias profundas.
Ted Lasso (em "Ted Lasso") precisa deixar de ser um peixinho dourado que nunca olha para trás e foge das tristezas. A série apresenta esse lema do protagonista como se ele fosse apenas uma espécie de “bon vivant”, mas na segunda temporada aprofunda na agonia causada por esse otimismo exacerbado, revelando que ele é um mecanismo criado por Ted a partir de um grande trauma familiar.

Já Barry (em "Barry") é uma “geladeira humana”, mecanismo que o faz ser tanto um excelente assassino quanto um péssimo ator e ser sociável - rimos da maneira como ele é inapto no teatro e nos relacionamentos, mas o jeito travado, robótico, na verdade foi uma forma do protagonista lidar com traumas da guerra e da violência excessiva em sua vida.

Em todas essas jornadas, os mecanismos de defesa mal-adaptativos são soluções que os protagonistas arranjam para tentar lidar com traumas profundos, mas que os fazem agir de maneiras ridículas e risíveis. Rimos do jeito excessivamente animado e brincalhão do Ted, assim como rimos das interações sociais desastrosas de Barry.
Porém, esses padrões de ação dos personagens também despertam dores profundas neles. Sem elaborar seus traumas e dores e apenas os mascarar, os personagens se tornam incapazes de evoluir psicológica e emocionalmente.
Esse mesmo caminho de processamento traumático e enfrentamento de mecanismos de defesa mal-adaptativos guiam também jornadas como a de Arabella em "I May Destroy You", Carmy em "The Bear" e Donny em "Bebê Rena".
Comentarios